quarta-feira, 4 de maio de 2011

Vida de São Tomás de Aquino: Os primeiros anos da Vida de Santo Tomás.



São Tomás de Aquino
Presbítero
Doutor Angélico da Igreja
(../../1225 - 07/03/1274)

VIDA DE SÃO TOMÁS DE AQUINO

por
Manuel Correira de Barros

OS PRIMEIROS ANOS DA VIDA DE SANTO TOMÁS
 
1. Introdução.

O assunto destas lições é a filosofia tomista, e não a história da . No entanto, começo-as por uma lição toda dedicada à pessoa de S. Tomás de Aquino; e faço-o muito deliberadamente, porque S. Tomás realiza, com a maior perfeição de que é capaz a natureza humana, o ideal procurado por quem estuda a filosofia. É para nós um Mestre, um exemplo, e um patrono, porque é Santo. Na sua vida, como em mais parte nenhuma, podemos aprender o que é a filosofia, o que é um filósofo, o que é um homem. Pareceu-me por isso que ficariam incompletas estas lições, se não começassem por pôr em plena luz a figura máscula e simples, dominadora pela sua grandeza, desse homem que se esqueceu a si mesmo para servir a Deus defendendo a verdade, o mereceu ser chamado o Doutor Comum da Igreja, e proclamado padroeiro de todas as escolas católicas.

2. Origem e educação de S. Tomás


Tomás nasceu e cresceu na Itália do século XIII.

Vejamos de que circunstâncias o rodearam o tempo e o lugar. O século XIII foi o mais brilhante da Idade Média, e um dos mais brilhantes de toda a civilização cristã. Quando começou, a reconquista de quase toda a Península e as Cruzadas tinham libertado a Europa dos perigos duma nova invasão árabe; a instituição da Cavalaria, apoiada pela influência da Igreja, tinha conseguido vencer a rudeza dos costumes que vinha desde as invasões dos Bárbaros; por outro lado, não tinham caído ainda sobre o mundo cristão as calamidades que o afligiram nos séculos XIV e XV: o Cisma do Ocidente, a Guerra dos 100 anos, a invasão dos turcos. Foi um século de paz e prosperidade, em que a cultura, até aí fechada nos mosteiros, se pôde desenvolver em pleno dia, e em que a civilização cristã atingiu alturas difíceis de ultrapassar na teologia e na filosofia, na arquitetura e na escultura, na poesia, e em muitos outros ramos da ciência e da arte.

Na Europa feudal, a Itália apresentava um aspecto muito particular. O feudalismo tinha aí uma feição menos ordeira, menos respeitadora da disciplina e da hierarquia que impunham os laços de suserania e vassalagem. Os ódios, as invejas, os conflitos de interesses, tinham dividido de cima abaixo a sociedade italiana, voltando família contra família, vila contra vila, e, nas cidades, facção contra facção. Estas questões, de caráter local muito marcado, tinham-se por assim dizer polarizado em volta da velha luta entre o Império e o Papado; se uma terra, uma família, se batia pelos Guelfos, partidários do Papado, a terra ou a família inimiga punha-se ao lado dos Gibelinos imperialistas; e assim, as disputas locais e as rivalidades dos partido formavam uma rede inextricável que dominava toda a vida italiana. Os Condes de Aquino, pais de S. Tomás, eram primos do Imperador da Alemanha Frederico II de Hohenstaufen, e gibelinos resolutos.

Próximo do seu castelo de Rocca-Secca, a Abadia do Monte Cassino, a mais gloriosa das Abadias beneditinas, fundada pelo próprio S. Bento, era um baluarte da causa papal. Como S. Tomás, desde muito pequenino, mostrava grande disposição para as coisas religiosas, os pais formaram o projeto de o educar no mosteiro, com que havia pouco tinham concluído uma paz. Dada a influência de que dispunham, não lhes seria difícil conseguir que ele fosse, mais tarde, eleito abade do Monte Cassino; o que daria à família o domínio dos bens temporais do mosteiro, e faria passar para o partido gibelino uma das posições mais importantes do partido contrário na região. Este plano, que reunia a honra e o proveito, foi transtornado pela sinceridade da vocação de S. Tomás; o que explica a oposição que ela encontrou da parte da família. Educado no mosteiro, como oblato, de 1230 a 1239, (dos 5 aos 14 anos, portanto, visto que tinha nascido em 1225).

S. Tomás teve de voltar para casa dos pais quando Frederico II expulsou os monges do Monte Cassino. Os pais mandaram-no para Nápoles nesse mesmo ano, para aí completar a sua educação na Universidade que o Imperador tinha acabado de fundar. Em Nápoles, travou conhecimento com os frades da Ordem de S. Domingos, criada poucos anos antes; convenceu-se de que a sua vocação o chamava a professar nessa Ordem; e, chegado à maioridade, em 1244, tomou o hábito dominicano. O pai de S. Tomás tinha morrido no ano anterior. Mas a mãe mantinha os mesmos projetos, e, vendo-os contrariados, resolveu opor-se por todos os meios a que ele professasse; por isso, quando, nesse mesmo ano, S. Tomás se dirigia para Bolonha, a caminho de Paris, aonde o Mestre Geral da Ordem o mandava continuar os seus estudos, foi assaltado pelos irmãos, que o levaram para o castelo de S. Giovanni, e aí o aprisionaram à ordem da mãe. Não pouparam nenhum esforço para dissuadirem S. Tomás do seu intento; indo a ponto de o fecharem em companhia duma mulher, julgando vencê-lo assim.

Mas não conseguiram nada; segundo uma versão, quando abriram a porta, encontraram S. Tomás a rezar, sossegadíssimo; outra versão conta que S. Tomás, impacientado, pegou na primeira coisa que tinha à mão, uma acha de lenha tirada da lareira e ainda em brasa, e expulsou com ela mulher e irmãos. As duas versões não são talvez incompatíveis. João Ameal, baseando-se nos estudos de Mandonnet, reconstitui a cena mais ou menos assim: S. Tomás, compreendendo que os irmãos o querem fechar na sala grande do castelo com uma camponesa dos arredores, a quem, com promessas e ameaças, convenceram a desempenhar tão triste papel, e justamente indignado com o insulto, brande uma grande acha parcialmente inflamada que tirou do fogão, e expulsa todos da sala. Depois, com a ponta carbonizada da acha, traça uma grande cruz na pedra da parede; e, caindo de joelhos, fica perdido em oração.

Seja como for, depois de o terem preso um ano, a mãe e os irmãos acabaram por ceder, e S. Tomás pôde seguir a sua viagem para Paris, onde, nesse mesmo ano, professou.

3. O mestre de S. Tomás


O mestre escolhido para completar a formação de S. Tomás era o mais notável do seu tempo: S. Alberto Magno. Tinha o estofo dum sábio, pela sua erudição, pela sua curiosidade universal, pelo seu espírito observador. Dedicou-se às ciências naturais; nesse campo, estudou experimentalmente a química; observou a vida das plantas e dos animais, tendo corrigido os livros de Aristóteles em mais dum ponto; e não se poupou a viagens para poder ver, pessoalmente, os efeitos de algum fenômeno meteorológico ou sísmico, ou ouvir o testemunho das pessoas que a ele tinham assistido. Em filosofia, seguia as idéias de Aristóteles; como os livros deste eram então mal vistos pela igreja, as suas obras filosóficas não tomam propriamente a forma de comentários de Aristóteles, mas expõem as doutrinas aristotélicas, corrigidas do que lhe parecia incompatível com o cristianismo, por uma ordem paralela à que Aristóteles tinha adotado. Em teologia, publicou uma "Summa Theologiae", que é uma primeira tentativa do que S. Tomás veio a realizar depois dele. Mas a grande obra da sua vida é a educação de S. Tomás, seu discípulo predileto. De pouco tempo precisou para lhe reconhecer o valor, apesar da modéstia proverbial de S. Tomás.

Diz a tradição, que acompanha sempre a memória dos grandes homens, que os condiscípulos deste lhe tinham posto o nome de boi mudo, por ser corpulento e de poucas palavras; o que S. Alberto teria comentado dizendo: "Ele ainda há-de encher o mundo com os seus mugidos". De 1245 a 1248, S. Alberto ensinou S. Tomás na Universidade de Paris. Nesse último ano, tendo de partir para Colónia onde ia fundar um "estudo geral" da Ordem, S. Alberto fez-se acompanhar de S. Tomás, que de então até 1252 foi, ao mesmo tempo, seu colaborador e seu discípulo. Mais tarde ainda, por várias vezes, teve ocasião de colaborar com S. Tomás, direta ou indiretamente, nas lutas em que este andou empenhado. Sobreviveu-lhe, apesar de 19 anos mais velho. E um dos últimos atos que se conhecem da sua vida é a viagem que fez a Paris, com 71 anos, em 1277, para defender a doutrina de S. Tomás, já morto, contra os ataques do Bispo do Paris, Estêvão Tempier.

4. As Universidades no tempo de S. Tomás


Terminada a sua educação em Colônia, S. Tomás foi mandado para Paris, a fim de conquistar aí os graus universitários.

A Universidade de Paris era a primeira de todas, na antiguidade e no prestígio; e a Ordem de S. Domingos tinha por praxe não aceitar para mestres senão os graduados lá. O nome de Universidade sugere-nos irresistivelmente uma organização oficial, com o seu corpo docente nomeado e pago pelo Estado, com as suas Faculdades instaladas cada uma em seu edifício de aspecto monumental, com a sua administração mais ou menos centralizada e burocratizada. Não é assim, ainda hoje, em muitos países; não era assim, de forma alguma, na Europa do tempo de S. Tomás. Em volta das escolas das catedrais, tinham-se agrupado escolas similares; e, como se estava em época de corporativismo, os professores e os alunos dessas escolas reuniam-se em corporação. "Universitas Magistrorum et Scholarium", que regulava a disciplina e fixava os programas, mas não nomeava nem pagava os professores. A Universidade dividia-se em Faculdades, que agrupavam os professores e os alunos duma especialidade; em Paris, havia a de Teologia, a de Filosofia, chamada das Artes, a de Direito, e a de Medicina. No entanto, o ensino realizava-se nas diversas escolas federadas, que conservavam a sua autonomia.

A conquista dos graus, na Faculdade de Teologia, estava ao tempo subordinada às regras seguintes. Depois dum exame preliminar, o candidato defendia, durante três Quaresmas seguidas, três teses que lhe davam direito, sucessivamente, aos graus de "Bacharel bíblico", "Bacharel sentenciário", e "Bacharel formado". Conseguido o primeiro destes graus, abria um curso sob a direcção dum Mestre, e tomando para texto o Livro das Sentenças de Pedro Lombardo. De 15 em 15 dias em média, defendia publicamente as suas opiniões, sobre assuntos marcados de antemão, contra quem quisesse atacá-las: o público culto do tempo apreciava muito essas disputas, feitas segundo as regras minuciosas em uso na Escola, que não permitiam que se vencesse um argumento à força de pulmão, nem que se ocultasse com a beleza da forma a pobreza dum raciocínio; mas que, quando começaram a ser procuradas como fim e não como meio, degeneraram em abuso, e foram uma das causas da decadência da Escolástica. Passados dois, anos, o candidato sujeitava-se a quatro argumentações, para obter o grau de Licenciado; e, depois da sua primeira lição pública, muito solene, recebia finalmente o grau de Doutor.

A QUESTÃO DAS ORDENS MENDICANTES.


5. S. Tomás em Paris. Foi em 1252 que S. Tomás, então com 27 anos de idade, começou a ensinar em Paris, no convento dominicano de S. Jacques. Criou nome logo às primeiras lições, pela clareza e pelo rigor da exposição, pelo seu saber, pelo desassombro das suas opiniões, e ao mesmo tempo pelo seu respeito pelos mestres, pela sua ortodoxia, pela sua maneira ponderada e prudente.

Os alunos começaram a afluir em grande número, abandonando os cursos doutros lentes, e preparando assim a S. Tomás as rivalidades que passado pouco tempo procuraram perdê-lo.

O livro de teologia então adotado era, como já disse, o das "Sentenças" de Pedro Lombardo, que a "Suma Teológica" de S. Tomás veio mais tarde a suplantar. Com a matéria das suas lições, S. Tomás principiou por escrever um "Comentário das Sentenças". Foi a primeira das suas obras de vulto; mas não foi o seu primeiro livro, porque tinha sido precedido por dois opúsculos sobre assuntos de filosofia: o "de Ente et Essentia" e o "de Principiis Naturae". Estas primeiras obras mostram já perfeitamente formado o essencial da doutrina de S. Tomás; este, se a desenvolveu nas obras posteriores, e corrigiu nalguns pontos secundários, não mudou de opinião em nenhum ponto fundamental. As teses mais características do tomismo aparecem já no seu primeiro opúsculo, o "de Ente et Essentia".

6. A questão das Ordens mendicantes


O despeito causado pelo sucesso das lições de S. Tomás, principalmente entre aqueles que viam diminuir a frequência das suas aulas, deu origem a uma oposição fortíssima contra os professores pertencentes a Ordens religiosas. Como as únicas que ensinavam nas Universidades eram a dominicana e a franciscana, foi contra as Ordens mendicantes que essa oposição se voltou.

A luta começou logo em 1253, no ano seguinte à chegada a Paris de S. Tomás de Aquino, e tornou-se tão violenta que S. Tomás, e o seu condiscipulo S. Boaventura, não puderam receber a licenciatura na época própria. Os adversários de S. Tomás disfarçaram-na em disputa teológica, e Guilherme de S. Amour abriu oficialmente o combate em 1255, com a publicação dum libelo chamado "Dos Perigos dos Últimos Tempos", em que afirmava que os religiosos não se deviam entregar ao ensino, mas ao trabalho manual, sob pena de faltarem às obrigações que os seus votos lhes impunham. Um ano depois, os professores seculares declararam-se em greve, e Guilherme de S. Amour partiu para Anagni, onde então residia o Papa, para fazer vingar as suas opiniões.

7. Vitória de S. Tomás


S. Tomás, para demonstrar que os religiosos podiam ser professores competentes, aumentou o número de disputas públicas até duas por semana; e, não contente com isso, criou as disputas "de quodlibet", para as quais convidava todos os professores, e em que, pela Páscoa e pelo Natal, discutia qualquer assunto que lhe fosse proposto pela assistência, sem aviso prévio. Dumas e doutras nasceram os primeiros livros das "Questões disputadas", "de Veritate", e os primeiros "Quodlibeta". São das obras mais notáveis de S. Tomás; nelas se expõem as doutrinas que S. Tomás defendeu em 253 sessões, durante três anos, e se rebatem as objeções, 10 e 20 para cada artigo, que opuseram a S. Tomás, ou que ele mesmo formulou para as combater. Não contente em bater assim os seus adversários no campo do prestígio, onde, ele bem o via, se travava verdadeiramente a luta, S. Tomás respondeu em 1257 as razões doutrinárias apresentadas por Guilherme de S. Amour, no opúsculo "contra impugnantes Dei cultum". A resposta era concludente, e a vitória de S. Tomás foi completa. Nesse mesmo ano, o Papa Alexandre IV condenou o livro de Guilherme de S. Amour, e proibiu a publicação de novos panfletos contra os religiosos; decretou também que os religiosos podiam legitimamente ensinar nas Universidades e receber os graus universitários.

Guilherme de S. Amour e os seus partidários foram expulsos da Universidade e exilados de Paris. S. Tomás pôde então receber a licenciatura e o grau de Doutor, e, de 1257 a 1259, regeu tranquilamente cadeira em Paris.

A QUESTÃO DO ARISTOTELISMO

8. S. Tomás em Itália.


Em 1260, o Papa Alexandre IV chamou S. Tomás para junto de si, na qualidade de teólogo da escola pontifícia. S. Tomás ficou em Itália até 1265, com esse Papa e os seus sucessores Urbano IV e Clemente IV, ora em Anagni, ora em Orvieto, ora em Viterbo, porque a agitação política em Roma mantinha então os Papas afastados da Cidade Eterna. Durante 2 anos, de 1265 a 1267, ensinou em Roma por ordem do Papa. Por sugestão da família, foi-lhe oferecido o cargo de abade do Monte Cassino, com o privilégio, que julgo sem exemplo, de continuar a pertencer à Ordem de S. Domingos. Era o velho sonho, que o prestígio de S. Tomás tornava outra vez realizável, em condições tão pouco vulgares. S. Tomás recusou. Ofereceram-lhe ainda o arcebispado de Nápoles, diocese de que dependiam a vila de Aquino e o castelo de Rocca-Secca; S. Tomás recusou também. Note-se que, na "Suma Teológica", S. Tomás diz, em dois artigos que lhe foram provavelmente sugeridos pelo que acabo de contar, que ninguém deve pedir o episcopado, mas também que ninguém o deve recusar terminantemente. Se não aceitou ser Arcebispo de Nápoles como lho ofereciam, devemos supor que foi por saber que o oferecimento não correspondia aos desejos íntimos do Papa, mas era devido a pedidos de família.

9. O aristotelismo e o cristianismo


Pouco depois da eleição de Urbano IV, S. Tomás foi encarregado de estudar a questão, então candente, da compatibilidade ou incompatibilidade da filosofia de Aristóteles com o cristianismo. Os séculos antecedentes só tinham conhecido de Aristóteles parte dos livros da Lógica, do que se chamava o "Organon". Mas, no fim do século XII, o colégio de Toledo começou a traduzir do árabe para o latim as restantes obras desse filósofo, conhecidas dos muçulmanos; e, já no séc. XIII, juntaram-se a essas as traduções feitas, também do árabe, pelos letrados da corte da Sicília. Além das traduções de Aristóteles, fizeram uns e outros as dos seus principais comentadores árabes, em especial de Averrois. O aparecimento das obras de Aristóteles no mundo latino foi um fato sensacional. Da filosofia da antiguidade, além da lógica de Aristóteles, os doutores cristãos só conheciam alguns Diálogos de Platão. Laboriosamente, homens como Abelardo e S. Anselmo tinham reconstruído o essencial duma filosofia; mas o pensamento cristão estava longe de ter conseguido um sistema acabado como o de Aristóteles, que assim, quase de repente, aparecia nas escolas. Com verdadeiro entusiasmo, os doutores cristãos começaram o estudo do aristotelismo.

Mas os livros de Aristóteles são dum pagão; pela brevidade do estilo, são de compreensão difícil; a sua doutrina aparecia deformada nas traduções árabes; e, para mais, vinha acompanhada dos comentários de Averrois, que a interpretavam num sentido totalmente oposto ao cristianismo. Aristóteles não fala da Criação; diz, ou parece dizer, que Deus não conhece o mundo, e que a sua causalidade não se estende imediatamente a todas as coisas. Por outro lado, é pouco claro quando fala da imortalidade da alma; e o comentário de Averrois conclui pela negação duma imortalidade pessoal. Nessas condições, é compreensível que se levantasse na Igreja uma forte oposição contra o aristotelismo. Em 1210, um concílio parcial, reunido em Paris, proibiu que nessa cidade se ensinasse a metafísica pelos livros de Aristóteles (sem, no entanto, proibir aos professores a leitura desses livros); em 1215, o legado do Papa confirmou a proibição. Em 1231, Gregório IX nomeou uma comissão para estudar e corrigir as obras de Aristóteles, renovando, no entretanto, a proibição já feita. Mas em 1255, embora a comissão não tivesse feito nada, a Faculdade das Artes de Paris anunciava o ensino de toda a obra de Aristóteles, com a aprovação do legado pontifício.

Urbano IV, retomando a iniciativa de Gregório IX, tornou a aplicar as proibições, encarregando S. Tomás de fazer o que a comissão nomeada por este não tinha feito.

10. As traduções diretas de Aristóteles.


S. Tomás, pela sua formação, era aristotélico. Tinha sido educado por S. Alberto Magno, que, como já disse, dentro do que a Igreja permitia, ensinava o aristotelismo sem utilizar os livros de Aristóteles, e corrigindo-o onde lhe parecia necessário. Mas o seu procedimento, nesta ocasião, é um modelo de imparcialidade. Antes de se manifestar, estudou a autenticidade dos livros atribuídos a Aristóteles; e conseguiu mostrar que o livro das "Causas", por exemplo, era apócrifo, e extraído da obra dum filósofo neoplatônico. Por não confiar suficientemente no seu conhecimento do grego, procurou obter traduções diretas de Aristóteles, tão fieis quanto possível. Encontrando, na corte pontifícia, o helenista Guilherme de Moerbeke, dominicano como ele, pediu-lhe que se encarregasse desse trabalho; e este, metendo mãos à obra com atividade inexcedível, fez em pouco tempo, dos principais livros de Aristóteles, traduções que ainda hoje se podem considerar clássicas, senão pela elegância do estilo, ao menos pela fidelidade ao original.

11. Os "Comentários" de S. Tomás


Então, tendo uma base sólida sobre a qual trabalhar, S. Tomás começou a escrever os seus comentários de Aristóteles. Não "retocava" Aristóteles de acôrdo com idéias estranhas à filosofia deste; cingia-se, com o maior rigor, aos princípios adotados por ele; procurava compreender o seu pensamento, dentro do maior respeito pelo Mestre, e da maior benevolência; e, se alguma coisa tinha de modificar, era de acordo com os princípios do aristotelismo, não contra eles. Por exemplo: na "Metafísica", Aristóteles ensina que Deus só se conhece a si mesmo, S. Tomás acrescenta simplesmente: mas "conhecendo-se a si mesmo, conhece tudo"; o que, deve notar-se, justifica de maneira que afasta todo o panteísmo. Podemos dizer portanto, sem paradoxo, que a obra de S. Tomás é mais aristotélica do que a do próprio Aristóteles. Neste espírito, de 1265 a 1268, S. Tomás comentou a Física, a Metafísica, e os livros de Aristóteles sobre o homem e a moral. Treze comentários ao todo, em que a obra de Aristóteles aparecia libertada dos erros que os defeitos de tradução e os comentários dos árabes lhe tinham introduzido; libertada também dos erros que o próprio Aristóteles, por falta de aplicação rigorosa dos seus princípios, tinha deixado nalguns pontos; continuada e magnificamente completada por um discípulo digno do Mestre; enfim, com uma unidade, uma coerência, um acabamento, que até hoje não foram excedidos. Não admira por isso que os comentários de S. Tomás tenham justificado perante a Igreja a filosofia de Aristóteles. Se a vitória não foi total, neste momento, e a luta continuou em diferentes pontos, como já vamos ver, foi porque muitos doutores se quiseram mostrar fieis às interpretações de Averrois; mas, para a Igreja, a causa estava julgada; o Roma nunca mais proibiu o ensino do aristotelismo.

12. A "Suma contra os Gentios"


O grande esforço que representa o comentário de quase toda a obra de Aristóteles, feito em período tão curto, não impediu S. Tomás de escrever outros trabalhos notabilíssimos durante a sua estada em Itália. O principal é a "Suma contra os Gentios". Essa obra, escrita a pedido de S. Raimundo de Pegnafort, é uma exposição completa da doutrina cristã, destinada especialmente aos árabes e aos judeus. Por isso tem nela especial relevo a filosofia, que justifica a fé; o que lhe tem feito dar às vezes, impropriamente, o nome de "Suma filosófica".

Escreveu também, no mesmo espírito, o seu opúsculo "Contra os erros dos Gregos"; continuou as "Questões disputadas"; comentou o livro dos "Nomes Divinos" atribuído a S. Dionísio Areopagita, e vários livros da Bíblia; e começou, em 1265, a "Suma Teológica". Também durante a sua estada em Itália, compôs o ofício para a festa do Corpo de Deus ainda hoje adotado pela Liturgia. Esse ofício foi escrito em 1264, a pedido do Papa Urbano IV, que instituiu a festa. Nos hinos, S. Tomás revela-se verdadeiro poeta, e mostra, no verso como na prosa, as qualidades que o caracterizam: clareza, simplicidade, concisão, riqueza de pensamento. Conta-se que o Papa tinha também pedido a S. Boaventura, antigo condiscípulo e amigo sincero de S. Tomás, que escrevesse um projeto de ofício para a nova festa: mas que S. Boaventura não chegou a apresentá-lo; ao ouvir ler o ofício composto por S. Tomás, comoveu-se até às lágrimas, e rasgou o que levava escrito.

A QUESTÃO DO AVERROÍSMO

13. Os augustinistas


Em 1269, S. Tomás foi chamado novamente a Paris, onde estava no auge a questão do averroísmo latino. Era a última fase da luta a que tinha dado lugar o aparecimento da filosofia de Aristóteles. Torna-se preciso expor rapidamente o estado da questão, para se poder avaliar do grau de desorientação a que ela tinha levado espíritos que não tinham a grandeza e o equilíbrio do gênio de S. Tomás. Os filósofos cristãos anteriores a S. Tomás tinham sofrido fortemente a influência de S. Agostinho, e, por intermédio deste, a de Platão e dos neoplatônicos. Ora o platonismo opõe-se essencialmente à filosofia aristotélica em tudo o que diz respeito ao conhecimento. Platão entende que os nossos conhecimentos provêm diretamente das "Idéias", exemplares ou protótipos eternos, de que, em sua opinião, as coisas reais são reflexo imperfeito; e S. Agostinho, pondo as Idéias em Deus, criador das coisas, pensa também que os nossos conhecimentos são uma participação direta das verdades eternas. Aristóteles, pelo contrário, conclui da observação dos fatos que os nossos conhecimentos são abstraídos das coisas; sendo o processo de abstracção obra do que chama o "intelecto agente". S. Tomás era discípulo convicto de S. Agostinho. Aceitava, no essencial, a sua teologia; admitia muitas das suas opiniões filosóficas, que, aliás, não chegam a formar um todo bem destacado da teologia; em particular, pensava como ele que as Idéias de Platão eram simplesmente aspectos diversos da perfeição divina.

Mas, no conhecimento, seguia Aristóteles, mantendo-se perfeitamente dentro da doutrina cristã, visto que admitia em cada homem um intelecto agente, simples faculdade da alma, e estendia a imortalidade a toda a alma imaterial. Averrois, pelo contrário, supunha um só intelecto agente, comum a todos os homens; e, como limitava a imortalidade ao intelecto agente, negava a imortalidade pessoal do homem, o que é, evidentemente, oposto ao cristianismo. Os augustinistas, entre outros Alexandre de Hales, João Peckam, e o Bispo de Paris Estêvão Tempier, eram católicos sinceros, e combatiam encarniçadamente o averroísmo; mas entendiam, como os averroístas, que Aristóteles só admitia a interpretação de Averrois, e por isso combatiam todo o aristotelismo, com o mesmo fervor. Em especial, combatiam a tese da unidade de forma substancial no homem, defendida por S. Tomás.

14. O averroísmo latino


Contra eles, lutavam os averroistas, que defendiam Aristóteles, e ao mesmo tempo as interpretações de Averrois, com todos os seus erros. Além de negar a imortalidade da alma, como já disse, Averrois ensinava o fatalismo mais absoluto: os acontecimentos eram ditados, inexoravelmente, pelos movimentos dos astros. Negava a Providência, a Criação, o livre arbítrio. E tinha como ponto de fé que a inteligência de Aristóteles era a maior que a humanidade tinha produzido ou podia produzir; do que resultava a impossibilidade de combater, ou corrigir, as suas idéias filosóficas. Os averroístas latinos, Boécio de Dácia, Bernier de Nivelles, chefiados por Siger de Brabante, dominavam a Faculdade das Artes da Universidade de Paris. O mais espantoso de tudo, é que esses homens eram católicos. Aceitavam todos esses erros, contrários à fé; e, para conciliar as duas coisas, admitiam a existência de duas verdades distintas, diferentes, opostas mesmo, uma filosófica, outra teológica. Assim, ensinavam o fatalismo, a negação da liberdade humana, como racionalmente demonstrados em filosofia, e, ao mesmo tempo, a Providência, o livre arbítrio, como verdades de fé; acrescentando, para sossegar a consciência, que, na prática, nos devemos guiar pela fé e não pela razão. É difícil saber até que ponto era sincera a atitude dos averroístas latinos. De qualquer forma, ela revoltava a consciência do público católico, que se inclinava a ver nos augustinistas os únicos defensores da religião, por serem adversários irredutíveis do averroísmo; só num ponto os dois grupos estavam de acordo: era em identificarem Aristóteles com Averrois.

15. S. Tomás de novo em Paris


S. Tomás, que pelos seus comentários de Aristóteles tinha mostrado que os erros de Averrois, e os do próprio Aristóteles, eram incompatíveis com um aristotelismo bem compreendido, era a pessoa indicada para restabelecer a paz no meio parisiense, tão agitado. Por isso, a pretexto da doença dum mestre, os seus superiores mandaram-no de novo para Paris em 1269, apesar de ser contrário a todas as tradições da Ordem de S. Domingos chamar segunda vez um professor a ensinar nessa Universidade. Os averroístas e os augustinistas, que se combatiam em todos os pontos de doutrina, uniam-se contra ele. Para os primeiros, S. Tomás era um traidor a Aristóteles; para os segundos, era solidário dos erros de Averrois. E ainda se lhes juntaram, de longe, Guilherme de S. Amour e os seus partidários exilados. De forma que S. Tomás, durante os anos de 1269 e 1270, teve de se defrontar com três grupos diferentes de adversários. Contra os ataques de Guilherme de S. Amour e do seu amigo Nicolau de Lisieux, escreveu os opúsculos "da perfeição espiritual" e "contra os que desviam os homens da vida religiosa". Contra os augustinistas, que admitiam nos Anjos uma matéria não-corpórea, publicou a sua obra "das Substâncias separadas"; e, como eles confundiam a questão da eternidade do mundo com a da Criação (S. Tomás considerava a primeira como não demonstrável, mas também não impossível à luz da razão, e demonstrava a segunda), escreveu ainda o folheto, que denota, pelo nome, uma certa impaciência em se ver atacado por católicos ortodoxos como ele: "da Eternidade do Mundo, contra os murmuradores"; "contra murmurantes". Contra o orgulho dos averroístas, pregou aos estudantes o célebre sermão chamado "de vetula" o "sermão da velhinha", em que afirmava que uma velhinha cristã, conhecendo o catecismo, sabia mais acerca das questões essenciais da filosofia do que todos os filósofos da antiguidade; e respondeu diretamente ao livro de Siger de Brabante, "da Alma intelectual", com o seu opúsculo "da Unidade do intelecto, contra os Averroístas".

S. Tomás empenhou-se a fundo nesse trabalho. Primeiro pela autoridade de Aristóteles, depois simplesmente pelo raciocínio, refutava completamente os erros de Siger; no fim, denunciava o escândalo da sua doutrina das duas verdades; e acabava por intimá-lo a não ensinar as suas opiniões a rapazes sem competência para as discutir, mas a vir impugnar, publicamente, as razões dos que o combatiam. E de fato, nas disputas públicas, S. Tomás, que então estava no apogeu do seu talento, defrontava todos os adversários. Sem transigências, sem olhar a pessoas, mas, como sempre, com calma, de maneira objetiva, e dentro do maior respeito pelo adversário, explicava, respondia, rebatia argumentos, vencia quando não convencia.

16. Vitória de S. Tomás


O seu esforço foi coroado dos melhores resultados. O Bispo de Paris, augustinista, tinha submetido ao juízo da Igreja quinze teses, das quais as treze primeiras averroístas, mas as duas últimas defendidas por S. Tomás; em 10 de Dezembro de 1270, a Igreja pronunciou-se; as treze proposições averroístas foram condenadas, às duas últimas não foi feita qualquer censura. Siger de Brabante submeteu-se. E, se a agitação a que a luta tinha dado origem não se acalmou logo, e durante alguns anos ainda provocou tumultos na Universidade de Paris, a questão estava definitivamente resolvida: o averroísmo latino morria; e o aristotelismo, na sua interpretação tomista, era adotado quase universalmente. Dois anos mais tarde, em 1272, S. Tomás foi mandado organizar um "estudo geral" da Ordem dominicana em Nápoles, a pedido de Carlos de Anjou, rei de Nápoles e irmão de S. Luís. A Universidade de Paris protestou contra a sua saída junto dos superiores da Ordem. Mas estes, considerando terminada a sua missão em Paris, mandavam-no aonde ele pudesse prestar melhores serviços; por isso, não atenderam o protesto.

17. A obra capital: a "Suma"


Todo o fim da é dominado pela "Suma Teológica". Desde 1265 até à morte, quase dez anos, apesar de envolvido em lutas tão ásperas, trabalhou nessa obra capital, que teve de deixar a meio da terceira e última parte. É a obra da maturidade, que condensa o esforço duma vida inteira. Tudo aquilo, pode dizer-se, de que S. Tomás se ocupou nos seus outros livros, é retomado na Suma, de maneira definitiva, mais concisa, mais geral. Tudo é enquadrado num plano amplo, notável pela unidade e pela simplicidade; e, diz Sertillanges, "uma das melhores maneiras de compreender o sentido que S. Tomás dá às suas teses é meditar a ordem por que as apresenta". Na Primeira Parte, trata de Deus como princípio: Deus uno e trino, a Criação, os Anjos, o homem. Na Segunda, subdividida em duas, ocupa-se de Deus como fim; na primeira secção, estuda o fim último do homem, os atos humanos, as paixões, os hábitos, as virtudes a os vícios em geral, a Lei e a Graça; na segunda secção, trata uma a uma das virtudes e dos vícios que se lhes opõe, e, no fim, dos diversos estados em que o homem pode viver. A Terceira Parte é dedicada à Redenção: o dogma da Encarnação, a vida de Jesus, os Sacramentos. A parte escrita por S. Tomás termina a meio do Sacramento da Penitência. A Suma foi concluída, num suplemento, pelo seu discípulo Reinaldo de Piperno, segundo a doutrina exposta por S. Tomás no comentário do "Livro das Sentenças". A obra está dividida em tratados, estes em questões (612 ao todo, para as três partes e o suplemento), e as questões subdivididas em artigos, cinco a dez, em regra, por questão. Cada artigo trata só dum ponto bem determinado, segundo uma disposição quase uniforme; a mesma das "Questões disputadas", que, aliás, não é original de S. Tomás de Aquino, porque já Abelardo tinha adotado uma disposição semelhante, depois melhorada por Alexandre de Hales. O artigo começa pela exposição das objeções contra a solução defendida, três ou quatro, em regra, na Suma. Segue-se uma citação favorável, da Bíblia ou dum Doutor considerado, geralmente S. Agostinho ou Pedro Lombardo em teologia, ou, em assuntos filosóficos, Aristóteles.

Depois vem a conclusão, que, se é assunto que a filosofia pode resolver, nunca se funda num argumento de autoridade, mas no raciocínio; se o assunto só é acessível à teologia, a conclusão baseia-se na Revelação. E o artigo termina pela resposta às objeções, uma a uma. S. Tomás aplica este esquema com grande elasticidade. Às vezes, cita mais do que um argumento favorável; outras vezes, acha que a citação, embora favorável, peca por excesso, e responde-lhe depois das respostas às objeções; muitas vezes, também, entende que a conclusão já resolve suficientemente todas as dificuldades, e então dispensa-se de lhes dar solução especial. Mesmo quando o aplica sem alteração, S. Tomás sabe utilizar as possibilidades que o esquema dá. Nunca repisa, nas soluções, os argumentos da conclusão; aproveita-as para completar o que disse no corpo do artigo. Muitas vezes, trata na conclusão só do aspecto geral da questão, deixando para as soluções os aspectos particulares. Sabe graduar as suas palavras conforme se trata dum artigo de fé, duma doutrina próxima da fé, duma verdade demonstrada, ou duma simples opinião mais ou menos provável. Em resumo, cada artigo da Suma é equilibrado, voluntariamente breve, e sempre preciso. A repercussão que a Suma Teológica teve foi muito grande, no Ocidente como no Oriente, onde se espalhou em traduções gregas; e continua a sê-lo. No século XV os dominicanos adotaram-na como livro de texto para o ensino da teologia, em substituição do "Livro das Sentenças"; seguiram-lhes o exemplo outras Ordens religiosas e muitas escolas. E hoje, quase sete séculos depois de escrita, o Papa Pio X recomendou a sua adoção a todas as Universidades católicas.

A OBRA DE S. TOMÁS

19. As obras de S. Tomás


S. TOMÁS deixou uma obra imensa. Basta nomear a "Suma Teológica", um "Compêndio de Teologia" que ficou incompleto, e os comentários das "Sentenças", dos "Nomes Divinos", do pseudo-Dionísio do "de Trinitate" de Boécio; a "Suma contra os Gentios", e o opúsculo "Contra os erros dos Gregos"; os comentários de tantos livros da Bíblia, Job, os Salmos, o Cântico dos Cânticos, Isaías, Jeremias, os Evangelhos, as Epístolas de S. Paulo; as "Questões disputadas", que resumem as disputas em que, durante mais de vinte anos, teve de tomar parte, tratam "da Verdade", "do Poder divino", "das Criaturas Espirituais", "da Alma", "do Verbo Incarnados", "do Mal", "das Virtudes"; os XII "Quodlibeta"; os opúsculos de polêmica, em resposta aos adversários das Ordens mendicantes, aos augustinistas, aos averroístas; os comentários de Aristóteles e diversos opúsculos de filosofia; dois opúsculos de política, o "de Regno" ou "de Regimine Principum", sobre as formas de governo e o "de Regimine Judaeorum", sobre as normas da justiça a adotar para com os judeus; finalmente, o ofício do Corpus Christi, várias orações, e diversos escritos sobre o Padre Nosso, o Credo, a Ave Maria. Tantas obras revelam uma fecundidade extraordinária, principalmente se nos lembrarmos de que S. Tomás era professor, e que o serviço docente lhe ocupava portanto boa parte do dia; que era frade, obrigado a participar, no Coro, do Ofício Divino, sabendo-se, de mais a mais, que raras vezes se utilizava das dispensas a que as suas ocupações lhe davam direito; finalmente, que teve de se deslocar muitas vezes, para França, para a Alemanha, para a Itália, num tempo em que as viagens eram extremamente morosas.

20. A Lição de S. Tomás


S. Tomás deixou-nos, principalmente, a lição do seu exemplo. 49 anos de vida, dedicada a Deus desde os 5 anos, sem um desvio, sem uma hesitação. Entrou no Mosteiro do Monte Cassino por vontade dos pais; mas S. Tomás concordava com o ato deles. Lá está um artigo da Suma a dizê-lo: "Podem admitir-se crianças numa Ordem religiosa?"; a conclusão é que, embora não possam fazer votos por causa da idade, devem receber-se para serem educadas na vida religiosa. Com o que ele não concordava era com os motivos que tinham guiado os pais; não procurava glória para si, nem riqueza ou influência para a família. Queria entrar em religião pelo único motivo aceitável: a intenção sincera de servir a Deus. Por isso lutou contra a família até vencer. Depois, empregou todas as suas forças em bem cumprir os deveres que lhe traçava a obediência a que voluntariamente se tinha submetido. Obedeceu aos seus superiores dentro da Ordem dominicana; obedeceu ao Papa; com boa vontade, de todo o coração. E não recusava nenhum trabalho, mesmo pedido por quem não tinha autoridade para lhe mandar; é a Suma contra os Gentios escrita a pedido de S. Raimundo de Pegnafort; o Compêndio de Teologia a pedido de Reinaldo de Piperno; o "de Regno" feito a pedido do Rei de Chipre; e outras obras mais. Aceitava os trabalhos, mas recusava as honras. Chega a ser impressionante: Se quisermos dizer o que ele foi, e virmos as coisas pelo lado das grandezas deste mundo, temos de dizer que não foi nada. Mas se as virmos como deve ser, teremos de confessar que foi um grande Santo; um frade exemplar; um Sábio na melhor acepção da palavra, sincero, de espírito aberto, apaixonadamente trabalhador; e um tipo perfeito da humanidade, pelo equilíbrio, pela saúde moral e física, pela largueza da inteligência e a força da vontade.

21. S. Tomás filósofo


Foi um grande filósofo. Dá-se o caso curioso de S. Tomás nunca ter pretendido ser, propriamente, filósofo; considerava-se teólogo, como convinha, acima de tudo, à sua vocação de dominicano. E, com excepção dos comentários de Aristóteles, dalgumas obras de polémica, e de pouco mais, os seus livros são, direta ou indiretamente, de teologia. Mas, em filosofia, era filósofo de verdade. Ninguém sabia melhor do que ele quanto pode a razão, com os seus recursos naturais, baseada nos princípios evidentes e nos dados da observação; ninguém confiava, mais do que ele, em que as conclusões dos raciocínios válidos não podem contrariar a fé. Olhava a filosofia como uma ciência autônoma, completa, com os seus princípios próprios e a sua maneira de ser particular, embora sem levar essa autonomia a ponto de poder considerar demonstrado o que se opusesse às conclusões duma ciência que dispõe de dados mais certos: a teologia. Em filosofia, nunca se apoiava na autoridade; mas não desdenhava, estudar cuidadosamente os mestres, e invocava-lhes o nome quando estava de acordo com eles, com tanto escrúpulo como modéstia. Só se valia da autoridade na teologia, porque, aí, a autoridade não é humana, mas divina. Se houve coisa que S. Tomás nunca quis ser, foi inovador. Não queria criar uma filosofia sua, mas das coisas; era a filosofia do ser. Disse, o melhor que pôde e soube, o que as coisas são, na realidade; se já alguém o tinha dito antes dele, não era motivo para não o repetir; se ninguém o tinha dito ainda, não era motivo para ele o não dizer. Não fazia obra pessoal, mas trabalho objetivo. S. Tomás acreditava que, na medida em que os homens subordinam as suas idéias à realidade das coisas, devem entender-se. Por isso, procurava o acordo de fato, que muitas vezes se esconde sob o aparência duma oposição de palavras. Assim, por exemplo, falando da divergência entre os estóicos e os peripatéticos a respeito da compatibilidade da virtude com as paixões, diz: "Esta divergência, como observa S. Agostinho, está mais nas palavras do que no pensamento duns e doutros" [5]. Assim também, apesar de discordar deles em muitos pontos, está de acordo, no principal, com Platão e com S. Agostinho, sem deixar de ser discípulo de Aristóteles. Se um assunto é acessível à simples razão, trata-o pela filosofia, embora não deixe, quando o caso se dá, de mostrar, por uma ou outra citação teológica, que ele faz também parte da doutrina revelada; deste modo, quase toda a Primeira Parte da Suma, e boa parte da primeira metade da Segunda, são de pura filosofia. Mas se o assunto excede os recursos naturais da razão, e só se pode tratar tomando por base a Revelação, di-lo de maneira a não deixar dúvidas. A teologia de que se ocupa não é a teologia positiva, que estuda a passagem da Bíblia ou o documento da tradição em que uma doutrina se funda, ou a decisão da Igreja que a definiu como dogma, ou os termos em que foi primeiramente formulada; é a teologia especulativa, que procura o verdadeiro sentido em que uma doutrina deve ser entendida. Nela, os dados da Revelação fazem o papel que, em filosofia, pertence aos fatos observados; S. Tomás passa duma para outra sem que se note quebra de continuidade nos seus métodos ou na sua maneira de ver. O seu procedimento no caso do aristotelismo pode servir de modelo de probidade intelectual. Afastar tudo o que, de fato, não pertence à questão em estudo; procurar informação rigorosa sobre o assunto de que se trata; estudá-lo com espirito objetivo, tentando descobrir o verdadeiro significado das coisas; e depois, resolver com desassombro, respeitando as pessoas, mas desvendando os erros. Não se pode fazer melhor.

S. Tomás foi primeiro em teologia, e primeiro em filosofia. Mas julgo bem que o contraste, se o confrontarmos com os que, num e noutro campo, se lhe podem comparar, é maior ainda como filósofo do que como teólogo. Por isso me pareceu que, para primeira lição de filosofia, nada podia valer o exemplo da sua vida.


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